“Policiais como Leitores e Intérpretes da Anarquia: Imprensa, Circulação Postal e Repressão no Atlântico Sul (1890–1910)”
DOI:
https://doi.org/10.21142/DES-1803-2026-e0055Palavras-chave:
América LatinaResumo
No final de 1893, a polícia de Buenos Aires prendeu Enrique Peiré, editor do jornal anarquista La Riscossa. Em sua posse, encontraram uma notável coleção de 72 impressos anarquistas provenientes de diversas cidades da Europa e das Américas, o que permitiu às autoridades elaborar um catálogo revelador das intricadas redes transnacionais da imprensa libertária. O fato de esse catálogo ter sido rapidamente compartilhado com a polícia do Rio de Janeiro indica que a vigilância de impressos tornou-se crucial desde os estágios iniciais, obrigando as autoridades a enfrentar a extensão das redes postais anarquistas.
Seguindo a trilha desses e de outros intercâmbios, este artigo analisa a imprensa anarquista como um espaço central de circulação internacional e de vigilância pelas agências estatais sul-americanas entre 1890 e 1910. Parte-se da premissa de que o anarquismo local não pode ser compreendido sem os fios impressos que o conectavam a cidades europeias como Barcelona, Paris e Milão, bem como a centros sul-americanos como Montevidéu, São Paulo e Rio de Janeiro. O caso de Peiré – e a meticulosa classificação de sua coleção pela polícia – ilustra tanto a amplitude dessas redes quanto a transformação da imprensa em objeto de suspeita e indício de perigosidade, fenômeno que Philippe Artières (2013) denominou “delinquência gráfica”.
A hipótese central sustenta que a imprensa libertária funcionou simultaneamente como veículo de internacionalização e como alvo privilegiado da ação policial e diplomática. O estudo mostra como a polícia aprendeu a ler os jornais anarquistas, buscou identificar os autores de artigos incendiários, perseguiu distribuidores e chegou a propor, em 1908, que a Administração Postal filtrasse diretamente os impressos anarquistas. Tais práticas evidenciam tanto a vitalidade transnacional da imprensa anarquista quanto os esforços dos Estados sul-americanos para conter um fenômeno que ultrapassava fronteiras (Jensen, 2014; Albornoz e Galeano, 2017).
Os arquivos estatais da Argentina, Brasil (Arquivo Nacional – AN), Espanha e Uruguai, base desta pesquisa, preservam hoje vestígios de coleções de jornais e revistas anarquistas que demonstram a centralidade da cultura impressa para o anarquismo na transição entre os séculos XIX e XX (Suriano, 2001; Fernández Cordero, 2010). Em diálogo com estudos sobre redes transnacionais (Bantman, 2010), este artigo propõe ler como uma trama única a construção de redes internacionais e o desenvolvimento de práticas estatais destinadas a controlá-las, entrelaçando circulação e vigilância de maneira inseparável e revelando a tensão permanente entre expansão libertária e controle estatal.
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